segunda-feira, 16 de julho de 2012

Artigo Teológico: A Teologia Ascética em sua prática


Allan Ferreira
Bedamloa Pereira Cubala
Darlan Ben-Hur Morais Garcia
Eduardo Alberto Vicente de Oliveira



Artigo Teológico


Tarefa em grupo referente à matéria Reflexão Teológica
sob a orientação do Prof. João Batista Cavalcante.




SETECEB – Seminário Teológico Cristão Evangélico do Brasil
BACHAREL EM TEOLOGIA
ANÁPOLIS – 2012 
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A Teologia Ascética em sua prática

Introdução

São muitas as concepções e filosofias que vão surgindo ao longo da história da humanidade e precisamos estar atentos às suas influências e orientações, bem como nos posicionarmos criticamente e socialmente ante a elas. A renúncia e o rigor ao corpo, com a negação de desejos, caminham assim para o progresso da virtude e o aperfeiçoamento espiritual no que se denominou ascetismo; com grande influência na vida da igreja.
Em um link da UOL (2012) lemos que “A doutrina dualista defendida pelo neoplatônico Plotino, que identifica o espírito com o bem e a matéria com o mal, expressa na verdade um sentimento antiquíssimo.”, mostrando a tendência das religiões em “incluir a negação do prazer e dos desejos entre os caminhos do enriquecimento espiritual” e falando um pouco de sua origem e história:

[…] Entende-se por ascetismo a negação de desejos físicos ou psicológicos, visando à consecução de um ideal ou meta espiritual. O termo deriva do grego askeo, "exercitar", "treinar". Na Grécia antiga, a palavra era empregada para designar os exercícios físicos com que os atletas se preparavam, e órficos e pitagóricos logo passaram a usá-la para identificar as normas de austeridade que regiam suas comunidades. Foram, porém, os estóicos e os cínicos os primeiros que entenderam o ascetismo como a negação da matéria diante do espírito e conceberam a mortificação e o sacrifício como meios para transcender as limitações da carne. O cínico Diógenes praticou o desprezo absoluto pelas coisas materiais, e em Roma o êxito da filosofia estóica preparou o terreno para o cristianismo nascente. Mais modernamente, fenômenos tão díspares quanto o faquirismo e a cavalaria andante podem ser relacionados com o termo ascetismo. […] Primeiro surgiram no Oriente os eremitas e as figuras de são Clemente e são João Crisóstomo. Mais tarde, no Ocidente, as obras de santo Agostinho e são Bento definiram o ideal ascético na alta Idade Média, que chegou a extremos em certas comunidades monásticas: os monges sírios, por exemplo, se encerravam em celas estreitíssimas e evitavam qualquer movimento. […] A Bíblia não dita nenhuma norma de ascetismo, mas o anseio de santidade justifica o desprezo da carne e da riqueza, tendo inspirado o celibato, a pobreza e o jejum como meios de purificação da alma. Conseqüência disso foi o aparecimento de ordens religiosas como a dos franciscanos, que praticaram um ascetismo naturalista. As convulsões que assolaram a Europa a partir do século XIII trouxeram consigo um grande desejo de penitência e mortificação. Apareceram as flagelações e os cilícios. Depois da Reforma, surgiu no catolicismo um ascetismo místico que já não pretendia ser caminho da perfeição, mas meio de chegar à identificação com Deus. O Concílio de Trento (1545-1563) provocou o aparecimento de um ascetismo de férrea disciplina, exemplificado nos Exercícios espirituais, de santo Inácio de Loyola. No protestantismo não foram comuns as práticas ascéticas extremadas, mas os ideais de austeridade e renúncia estiveram presentes em muitas de suas comunidades. Junto com o cristianismo, o budismo é a religião que mais importância dá ao ascetismo, isso porque na doutrina de Buda o sofrimento está intimamente ligado ao desejo. Os monges budistas, porém, evitam um ascetismo extremo, já que consideram ser este, na verdade, outro modo de ceder aos desejos. No hinduísmo e no islamismo as práticas ascéticas são, em geral, de tipo moderado, baseadas na austeridade e na contemplação espiritual. (UOL, 2012)


Definição de Teologia Ascética

Eugene Peterson (2009, p.106), resume o ascetismo na seguinte sentença: “De que forma a condição humana molda nosso entendimento de Deus e como reagimos a ele?”. Em uma sentença afirmativa, temos: “parte da ciência espiritual que tem por objeto próprio a teoria e a prática da perfeição cristã desde os seus princípios até o limiar da contemplação infusa. Fazemos começar a perfeição como desejo sincero de progredir na vida espiritual, e a ascese conduz a alma, através das vias purgativa e iluminativa, até a contemplação adquirida” (DO VALE, 2012).
É também chamada “ciência dos santos”, “ciência espiritual”, “arte da perfeição”, uma vez que a palavra em si se remete a “exercício”, “esforço laborioso para educação física ou moral do homem”. A ascese são, portanto, esforços da alma cristã em luta para alcançar a perfeição; tratando dos primeiros graus da perfeição até o começo da contemplação (DO VALE, 2012); assumindo grande variedade de formas: do jejum à autoflagelação, “pois existem incontáveis maneiras de se reprimirem as paixões e os instintos do corpo”. Sendo assim, “seriam variedades de ascetismo o celibato, a rejeição dos bens materiais ou a provocação de dor.” – tendo tendências adotadas pelo cristianismo (UOL, 2012)
É vista em unidade à Teologia Mística (interessada na “teoria e prática da vida contemplativa, desde a primeira noite dos sentidos e da quietude até o matrimônio espiritual”), conhecida como Teologia Ascética e Mística, numa perspectiva de “continuidade” e “projeção” entre os termos. Sendo seu objetivo “participar da vida divina comunicada à alma e cultivada com ardor infatigável” (DO VALE, 2012).
Quanto aos métodos, deve seguir: experimental, doutrinal ou dedutivo, união dos dois, estudo com serenidade e ponderação – “fazendo triunfar o transe”. Tudo isto dentro dos graus de perfeição: purificação, iluminação, união com Deus (que culmina na morte). Portanto, é uma boa ilustração tomarmos um vaso e dizermos que o ascetismo está procurando a perfeição nesse vaso, a fim de que ele possa conter melhor o conteúdo que irá receber.

Argumentos contra a teologia ascética

Os escritores que falam sobre ascetismo geralmente colocam o subjugar o corpo como meio de alcançar a perfeição. Porém, a Palavra de Deus (a Bíblia) nem sempre dá base para a ascese naquele contexto (é forçar o texto, prensar). Infelizmente, ao longo da história da igreja muitos fizeram isso.
Entretanto, vemos as passagens como Mateus 5.25ss: “se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e joga-o fora; pois é melhor para ti perder um dos teus membros do que ter todo o corpo lançado no inferno. Se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e joga-a fora; pois é melhor para ti perder um dos teus membros do que ir todo o corpo para o inferno (versos 29 e 30); como também em Lc 14.26 “Se alguém vier a mim, e amar pai e mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs, e até a própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo”; ditas por Jesus. Tais passagens, em primeira vista parece até que Jesus estabelece a vida ascética como condição para entrar no Reino dos céus; mas pelo contrário, Jesus ensina que a vida espiritual é tão séria que requer o sacrifício e renúncia.
Por outro lado, no NT os gnósticos praticavam e ensinavam o ascetismo; em Colossenses, capítulo dois, versículos dezesseis, Paulo diz “assim, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados”. Esse grupo religioso chamado de gnóstico ensinava que o “corpo é mau e, que todo o que tende a destruir o corpo era bom”; pois o espírito deve ser libertado do corpo mais rápido possível, subjugando o corpo pela prática de ascetismo. Então, na mesma carta aos Colossenses; essa pratica foi combatida por Paulo, dando assim o fundamento para combater o ascetismo. Vimos que o cristão já mortificou a carne com Cristo, Paulo disse: 
Visto que morrestes com Cristo para os espíritos elementares do mundo, por que vos sujeitais ainda a mandamentos como se vivêsseis no mundo, tais como não toques, não proves, não manuseies? Todas essas coisas desaparecerão com o uso, pois são preceitos e doutrinas dos homens. Na verdade, esses mandamentos têm aparência de sabedoria em falsa devoção, falsa humildade e severidade para com o corpo, mas não têm valor algum no combate aos desejos da carne (Cl 2.20-23).

Ainda Paulo ao escrever para Timóteo ele esboça algumas práticas ascéticas; então, passa a advertir o jovem obreiro a evitar e afastar-se dos falsos mestres que ensinam a vida ascética como forma de alcançar a perfeição.
Eles proíbem o casamento e ordenam a abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ações de graças pelos que são fiéis e conhecem bem a verdade. Visto que todas as coisas criadas por Deus são boas, nada deve ser rejeitado se for recebido com ações de graças (cf. 1Tm 4.3,4). Ainda continua, porque entre eles estão os que se intrometem pelas casas e conquistam mulheres tolas carregadas de pecados, dominadas por várias paixões (2Tm 3.6).

No entanto, pode ser visto que tal prática não tem fundamento nos textos supracitados. 
Os reformadores não aceitaram o ascetismo, Lutero refutou essas práticas ascese quando afirma que o crente tem a liberdade de usufruir de todos os dons e provisões de Deus, e que a autonegação quanto a essas coisas nada tem a ver com a salvação da alma (Champlin 1997:339), ainda admite:
Todos podem usar discrição quanto aos jejuns e às vigílias, já que todos sabem que precisam controlar o corpo. Porém, aqueles que pensam que podem tornar-se piedosos através das obras, só dão valor ao jejum como uma obra, imaginando que são piedosos por muito praticarem essas coisas. No entanto, quebram suas cabeças ou arruínam seus corpos, nessas práticas ascetas (Champlin, 1997: p.339). 


Argumentos a favor da teologia ascética

Eugene H. Peterson diz que o homem deve se mostrar responsivo ao que é divino (“Cuja confiança está no Senhor”) isto é uma forma abençoada de vida. E o homem que é responsivo ao que é humano (“confia nos homens”) isto é uma forma amaldiçoada de vida, pois só tem uma porção minima da realidade (PETERSON, 2009, p.107). 
O N.T. mostra as condições favoráveis para uma vida ascética responsiva. A vida cristã é uma “disciplina”, uma “luta” para o reino dos céus (“E desde os dias de João, o Batista, até agora, o reino dos céus é tomado a força, e os violentos o tomam de assalto.” Mt 11:12), sendo que o sucesso nesta luta é ativado pela graça de Deus, e pelo seu Espírito. Para poder seguir a Cristo deve aplica-se às virtudes que ele próprio ordenou, deve disciplinar-se.
Foi Jesus quem falou sobre: renúncia dos bens (“Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me.” Mt 19:21), praticado pelos apóstolos (“Eis que nós deixamos tudo e te seguimos.” Mc 10:28); jejum (“Dias virão, porém, em que lhes será tirado o noivo, e então hão de jejuar.” Mt 9:15;  “Respondeu-lhes: Esta casta não sai de modo algum, salvo à força de oração e jejum.” Mc 9:29); pobreza (“Então, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.” Lc 6.20); celibato (“Porque há eunucos que nasceram assim; e há eunucos que pelos homens foram feitos tais; e outros há que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do reino dos céus. Quem pode aceitar isso, aceite-o.” Mt. 19:12); oração (“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.” Mt 26:41); disciplina (O sermão da montanha é uma chamada para uma vida disciplinada, Mt 7:13-27); constante vigilância (“Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor.” Mt 24:42).
O apóstolo Paulo também pregou temas com apelos a auto-disciplinas e exemplos semelhantes podem ser vistos em Tiago, João ou Pedro:  subjulgar o corpo (“Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à submissão, para que, depois de pregar a outros, eu mesmo não venha a ficar reprovado.” 1 Co 9 27); despojar o velho homem (“A despojar-vos, quanto ao procedimento anterior, do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano.” Ef 4:22); exterminar os desejos da carne (“Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais; a prostituição, a impureza, a paixão, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria.” Cl 3:5); o sofrimento nos tornando semelhante a Cristo (“Porque para isso fostes chamados, porquanto também Cristo padeceu por vós, deixando-vos exemplo, para que sigais as suas pisadas.” I Pe 2:21) – ainda que este esforço é baseado na ordem sobrenatural e, portanto, não pode ser realizada sem a graça divina; refrear o corpo (“Todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, esse é homem perfeito, e capaz de refrear também todo o corpo”. Tg 3:2).

Conclusão

Peterson representa com “imagens orgânicas” “as formas de vida que impedem ou promovem o acesso a Deus”, apresentando um arbusto plantado no deserto e uma árvore junto ás águas. Ele informa que a teologia ascética está atenta às “condições” na natureza humana que favorecem o desenvolvimento de uma consciência em relação a Deus, ao mesmo tempo que lida com pontos de “insensibilidade”, oposição, dificuldades. Ou seja, concordamos com o autor que o “Como somos — a maneira em que gastamos nosso dinheiro, comemos as refeições, lemos um livro, tratamos um estranho — influi em nossa capacidade de enxergar a beleza da santidade, de ouvir a palavra da absolvição, sentir o toque de amor, entrar numa vida de oração.” (Peterson, 2009, p.107)
O autor deste texto conclui dizendo que “nenhum de nós, pregador ou congregação, deve ser confiável nas questões relacionadas à alma e a Deus” (Peterson, 2009, p.108). Fala também que “em todas as questões do espírito […] deve haver um exame implacável dos meios e das motivações”, sendo o “discernimento […] a palavra normalmente usada em referência a isso na teologia ascética, e requer que seja diligentemente exercido por pregadores que se importam com almas”. Nisto, concordamos plenamente.
Portanto, alguma atenção à ascese se faz necessária para a vida cristã no sentido de entender e transmitir a mensagem de Deus, como de fato Ele o quer, até mesmo usando o nosso corpo, sentidos, razão, a vida toda (em Rm 12:1-2 é esta a oferta proposta e que fizemos a Deus). Assim, precisamos ter cuidado com os extremos, mas não ignoramos essa visão que tem sua verdade e sua contribuição na nossa vida. 

Bibliografia

CHAMPLIN, Russell Norman; BENTES, João Marques. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Candeia, 1997.
BROWN, Colin; COENEN, Lothar. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2000.
PETERSON, Eugene H. Espiritualidade subversiva. Organizado por Jim Lyster, John Sharon, Peter Santucci. Fabiani Medeiros. São Paulo: Mundo Cristão, 2009.
DO VALE, Inácio José. Aprofundando a Teologia Ascética e Mística. Disponível em: <http://contemplarlaic.blogspot.com.br/2012/02/aprofundado-teologia-ascetica-e-mistica.html>. Acesso em: 15 de maio de 2012.
MUTZ, Franz X. Teologia Ascética. Disponível em: <http://mb-soft.com/believe/ttxt/ascetica.htm>. Acesso em: 15 de maio de 2012.
PALAVRAS de Salvação dois. Psicologia e Religião. Disponível em: <http://blogdohomota.blog.terra.com.br/tag/ascetismo/>. Acesso em: 15 de maio de 2012.
UOL. Ascetismo. Disponível em: <http://choli.sites.uol.com.br/asce.htm>. Acesso em: 20 de junho de 2012.
<http://www.ourladyoffatimachurch.net/ENCICLOPEDIA(A)ASCETISMO.pdf> Acesso em: 13 de maio de 2012.

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